A vida é uma sucessão encadeada de factos. As preocupações ambientais, a gestão sustentada do espaço edificado, a preservação do meio natural, a educação social, a economia dos recursos naturais, são matérias já tão divulgadas e presentes no consciente individual que honestamente nunca farão parte das minhas divagações por aqui.
Hoje, numa das actividades diárias dedicadas ao meu prazer, tomar um duche demorado quanto baste, consciencializei-me do desperdício diário de água que pratico não me lembrando desde quando. É um facto este meu desleixo quase vergonhoso para ser partilhado, quase peçonhento se publicamente declarar que dele não prescindo.
Durante o tempo em que a água escorria por mim, lembrei-me de outros factos que de certeza se manterão inalterados durante a minha vida. Factos que farão de mim, com 50, 60, 70, 80, 90, 100, 110, 120 anos, a mesma pessoa que fui e sou.
Enquanto enxaguava o cabelo lembrei-me da primeira vez que ouvi “Start me up” dos Rolling Stones, do prazer que me dá ouvi-la e do prazer certo que com 120 anos terei ao relembra-la. É um facto. Durante a lavagem do tronco e braços lembrei-me da primeira vez que mergulhei num mar de água morna, da sensação absurda e maravilhosa de estar imerso em água quente numa banheira limitada pelo horizonte visual. Vai ser outras das minhas certezas que me darão prazer aos 120 anos.
Ultrapasso rapidamente as zonas erógenas por não me lembrar de nada significativo e finalmente chego às pernas.
Esfregava-as lembrando a primeira vez que usei um fato. O sentido do aprumo, o prazer da estética, outras certezas que me garantirão o prazer aos 120 anos. Existem outros factos de menor importância que me caracterizam, que permanecerão inalterados para que aos 120 anos seja o mesmo rapaz de hoje.
Um dia haverá um moço de 120 anos cheio de prazer, a curtir Stones de fato com água até ao pescoço no mar das Caraíbas.
O seu nome é Alex, Pedro Alex.
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