pedro alex

04/09/07

Pois, é mesmo assim.
Isto é, é mais ou menos assim. Como é?
É assim. Agora a sério? Sim assédio!
Ups, assério. Não a sério. Quem te leva a sério?
A D. Laura!
Menino tem aspirações políticas?
Não D. Laura!
Então “bote” shake!
Está bem D. Laura.
Seguem-se passosdescompassados…
Oh Yeah!!!
Põe-te à fresca! Eu?
Grande Jet. Avião? Não Leg!!!
Ui?!?!?!?!
O tempo passa, O tempo voa E a D. Laura está sempre boa!
O tempo passa, O tempo voa E a D. Laura anda sempre à toa!
Seguir-se-ão passosdescompassados. Sozinhos ou acompanhados. De noite, de dia, de solesombra.
O tempo passa, O tempo voa E a D. Laura está sempre boa!
O tempo passa, O tempo voa E a D. Laura anda sempre à toa!
Vou repensar a minha vida:
Menino tem aspirações políticas?
Não D. Laura. Menino tem idade para o seminário?
Não D. Laura. Então “bote” shake!
Seguir-se-ão passosdescompassados.
O tempo passa, O tempo voa E a D. Laura está sempre boa!
O tempo passa, O tempo voa E a D. Laura anda sempre à toa!
Seguir-se-ão passosdescompassados. Sozinhos ou acompanhados. De noite, de dia, de solesombra.
Vermelho
“Senhoras e senhores bem vindos a um voo sem destino. Desapertem os cintos, acendam os cigarros, bebam sofregamente as vossas garrafinhas, sigam à risca as instruções das nossas anfitriãs e usurpem a bel-prazer as sensações dos vossos sonhos. De uma vez por todas levantem voo desta terra oprimida pela gravidade, subjugada pelo mercado, desviada pelo tempo, marcada pelas horas, retraída pelas obrigações, desvirtuada pela ignorância e demagogia.”
- D. Laura, tem a certeza que era este o nosso voo?
- Então não queria lamber as cores do arco-íris?
- A senhora disse-me que seria propositado ao meu desenvolvimento já tardio!
- Mas não o obriguei.
- Não, seduziu-me.
- Arrepende-se?
- Não, o arrependimento é para os tolos.
- Está a ver. Já vai aprendendo e ainda nem levantamos voo.
- Aprender o sonho de voar, ver e lamber um arco-íris...
Surgiu-me amanhã, para quê ontem ou hoje se não há tempo, a ideia de provar as cores do espectro da luz solar. Assumi definitivamente o fim do relacionamento precário com a Lua. Escrevi-lhe, a putona não desceu do pedestal, era previsto depois da carta provocatória que lhe enviei.
A vida é mesmo assim, se a montanha não vai ter com o gajo, vai o gajo ter com a montanha. Confesso-me “deveras” precipitado para aguardar por montanhas, colinas ou outras coisas giras. Atiro-me de cabeça, sem capacete ou outras regras constantes de qualquer manual de segurança. Esperar é uma azia desgraçada, aclara os cabelos, pois, os meus até começam a estar aloirados pelo sol, disfarçava, mas não, não me apetece esperar.
Bem, não escrevo, então, da Lua. Levantamos. É giro escrever sem “gravidade”, dar uso aleatório às palavras. Elas saltitam frescas e sem pudor aos meus olhos. As palavras soam leves e a desmesura do significado não é nada importante.
Para o raio que parta a Lua julguei pensar enquanto o sonho ia materializando o vermelho, laranja, amarelo, verde azul, anil e violeta.
Dou por mim solto do chão, livre de pisar, sem querer poder esmagar, aberto a novos paladares. Seria o meu palato, língua, olhos mãos e boca, suficientes a novas provas delirantes?
Não quero a coisa por menos. Simplesmente delirar. Simplesmente desistir da eloquência, redigir-me por novos preceitos que me arrepiem da forma como inconsciente ao encaixar as minhas mãos nas coxas da D. Laura reparei nos pêlos do seu braço encostado ao meu eriçarem. Terá a senhora gelado?
Duvido.
A língua no canto dos lábios entreabertos à procura de uma migalha imaginária denuncia um atrevimento só possível a quem não se deixa intimidar por mãos ou por cores, muito menos por paladares. A D. Laura nunca gelaria.
Ao longe, enquanto subíamos, a primeira cor, o vermelho, tornava-se progressivamente dominante. Os meus dedos tamborilavam a intimidade da mulher, obviamente linda aos meus olhos que ao fitarem-na lhe enrubesciam o rosto graciosamente esculpido pela minha imaginação e pelo vermelho cada vez mais imperativo. Uma anfitriã passou por nós. Desviou o olhar delicadamente, também eu desviei o olhar da Laura, senti canela na boca e sede nos desejos.
Só se bebiam tequillas sunrise. Acedi à imposição sem críticas e pedi uma, afinal o vermelho, querido vermelho, vinha-se, dava-se.
A Laura estremeceu, arrebatada por uma impulsividade anormal fechou com estrondo as pernas deixando-me a mão presa. Enquanto sorria pelo conforto da armadilha tentei forçar a mão com pouca convicção. A Laura suspirou:
- Estamos quase no vermelho.
Laranja
Primeiro formou-se uma tímida atmosfera, só por ela se admiram as cores, depois dos primeiros nascer e pôr-do-sol, apareceu quase do nada, talvez mesmo tímido, o laranja. Das cores do mundo talvez seja ele o que mais faz sobressair as formas naturais que em contraluz revelam perfis subjectivos, fantasmas a acordar ou a adormecer.
Não era um pacto, eu e a Laura. Se haviam dias em que a olhava de uma forma apaixonada, outros haviam em que me apetecia deixá-la. A ela, ao “voo entre cores”, às contradições, tolerâncias, musicas, beijos, filmes, sopas, gentes, certezas, constantes e variantes. Não quero pactos nem obrigações, nem sei com quem, nem com o que ficar.
Bati com a tampa do notebook farto dos truques da D. Laura que ao espicaçarem-me os sentidos faziam-me perder tempo. Necessito de me libertar, concluí depois de beber a última gota da tequilla.
Agarrei num foguete que tinha de reserva para estas ocasiões, com a ponta do cigarro incendiei o rastilho e esperei por aquela sensação estonteante de subir ao céu num ápice. Nem sabia o que haveria dentro dele, se só bombas, daquelas que num estrondo assustam meninos, se só lágrimas, daquelas que num piscar de luz apaixonam meninas.
Ao fundo uma selecção musical irritava-me porque nada devia ao que sentia. Não tinha tempo para a mudar, o foguete já tremia, estava naquele segundo antes do orgasmo, aquele segundo em que se anseia por muito mais, o momento de querer subir bem alto, estourar ou com bombas ou com lágrimas sejam lá de que cor forem, e depois, como a cana, descer do bem alto quase a flutuar até poisar num êxtase absoluto. Foi o meu último pensamento.
Dei por mim a cortar esse espaço que se diz infinito, nem pensei, queria saborear bem a liberdade vertiginosa que sentia. Sorria mais uma vez.
Quando a impulsão terminou, esperei pelo efeito. Seriam as ditas bombas ou lágrimas?
Num tempo que sabia curto mas interminável esperei. Nada, fiquei sozinho naquele espaço sem dia e noite. Só então percebi que era eu o artifício daquele foguete. Era eu o fogo de artifício, borrei então o céu de laranja porque me apeteceu.
Quem me manda andar neste mundo virtual? Pensei.
Começou a queda, tentei fazer piruetas, caretas, imitar os marretas, dizer tretas, fazer um pouco de tudo para que parecesse um artifício. Seria como a queda de um anjo?
Não sabia se alguém me observava com aquela cara de espanto de quem vê foguetes nas noites quentes de Junho, lembrei-me dos bailes e das velhas de Miragaia. Continuava a cair aos soluços, ora para cá, ora para lá. Fui ao Yahoo buscar o guarda-chuva da Mary Poppins. Decisão acertada flutuei direitinho para a minha cama sozinha mas dada ao delírio. Mais uma vez o delírio, ainda tive tempo de pensar.
- Pedro Alex ainda estás aí?
- D. Laura, deixe-me descansar um pouco. Não se sente cansada?
- Não, quero mais!
- Não pode ser amanhã?
- Não, quero mais. Quero-o mais.
- D. Laura ainda agora cheguei do céu. Estou cansado, tontinho. Devia era ter desligado o notebook e não ter batido com a tampa.
- Pedro Alex?
- Sim.
- Como te posso abraçar?
- Não sei D. Laura. Ainda não pensei nisso. Porque não puxa também um pouquinho pela imaginação?
- Porque és tu a minha imaginação.
- Então dou-lhe a imaginação, escreva por si D. Laura.
- Não Pedro Alex, eu prefiro a tua.
Só queria descansar, borrar o céu de laranja, por muita imaginação que se tenha, cansa. Quase a entrar no sonho admiti que afinal o laranja não nasceu de um acidente entre o vermelho e o amarelo, merece toda a minha razoabilidade aceitá-lo na via das grandes discussões entre essas duas cores.
Pouco importa abordar o teor dessas discussões e a inteligibilidade do texto criado no limite.
Amarelo
A bordo surgiu um sinal de fundo amarelo com um ponto de interrogação. Pressentia-se uma atmosfera carregada de tanta bebida distribuída pelas anfitriãs. A liberdade era enorme, apeteceu-me trair a D. Laura, enfiar-lhe um valente par de cornos.
Comecei por desviar o pensamento da sua imagem imaginada, virei a cara para a gaja mais próxima e comecei a despejar-lhe os meus pensamentos mais ambíguos tentando descobrir a sua esperteza.
Seria um engate simples, rápido, talvez com direito a uma rapidinha nas cabines apertadíssimas destinadas à higiene, consumo de drogas não toleradas, e imoralidades generalizadas.
Lembrei-me, foi só um instante mas lembrei-me, de um sopro avisando-me que escrevia só sobre sexo, coitado do sopro.
“Quero-te foder, mas acho que já o sabes. Chupa que é caramelo” pensei a sorrir e sem saber qual o mal.
O amarelo é perigoso, comecei a sentir a pigmentação primária atrasar-me a consciencialização necessária à boa escrita e deixei-me ir.
A Laura tentou-me apanhar, coitada da Laura, tão atada à minha imaginação e nem assim me acompanha.
Virei a minha cara morena ao sol quente mas amarelo, desprezei os sentidos e imaginei-me um dos doze girassóis do VvG, o mais desalinhado de todos, o que se parecesse mais comigo. A gaja mais próxima, a que invadi com pensamentos ambíguos, aborreceu-se com a minha desatenção e avisou-me do tédio que uma eventual sobreposição de pensamentos sobre pintura lhe traria. Olhei-a, não na cara, objectivamente para o corpo instantaneamente endeusado pelo desejo. Convidei-a a partilhar o jarro e personificar um dos onze girassóis restantes, ajudei-a na imaginação dando-lhe uma mão ou uma pétala, já não me lembro. Renitente deixou-se entrar no mais alinhado de todos. A amarelidão revelou-se num esplendor surpreendente, os matizes aconchegaram-nos freneticamente aos outros, eram dez que numa corrente de ar quente se viraram em simultâneo deixando-nos no centro do arranjo floral
Verde
Depois do amarelo a Laura ficou berde comigo.
Sem qualquer pretensão de a consolar lebei-a aos biões que para consolo dos bimbos, parolos, provincianos e demais paneleirices que nos chamam, vão dar asas ao rio mais lindo do mundo que por mero azar da Natureza desagua no Porto, o Douro.
Expliquei à Laura que este ebento, os biões, com uma moldura humana expectável entre 400.000 a 600.000 almas só foi possível debido ao enorme esforço dos portuenses que ao cederem as suas maisons para os biões lá dormirem ebitaram que as margens do Tejo fossem abençoadas por estas máquinas boadoras.
A Laurinha, amânsada com o espectáculo, experimentou a bubida que dá asas e em êxtase reibindicou para almoço uma frãncesinha e uma caneca bem geladinha de Sagres.
Expliquei-lhe que a Super Bock, com as modernices das minis, rapidinhas e concertos só no Sul não merece consumo.
Encolhendo os ombros aceitou, a Lauríssima queria era buber para matar o calor do Sol e o picante do manjar.
- De tarde lebas-me a ber o dragom?
- Não filha o dragom é azul, fica para a próxima.
- Mas depois lebas-me?
- Lebo, carbalho. Agora bebe!!!
Azul
O azul chega frio.
Despedi-me da D. Laura, saiu-me do espírito, sorridente, sabia do caminho que deveria tomar e eu do meu. A imagem desvaneceu-se lentamente entre o fumo azulado que circundava um homem num carrinho que assava castanhas. Meti a as mãos aos bolsos convencido da despedida eterna, irrepetível. Caminhei em sentido contrário de alma apertada. Olhei para trás uma última vez, já não a via. Terá ela olhado uma última vez?
Tirei a mãos dos bolsos, acertei o cabelo, comecei a cantarolar baixo. “O tempo passa, o tempo voa, e a D. Laura está sempre boa. O tempo passa, o tempo voa, e a D. Laura anda sempre à toa.”
Entre outros pensamentos, retrospectivas de uma fase azul passada, sentia a vil saudade, a dor cortante de tirar a aliança depois de amar por longos tempos. Nem sempre se pode ser feliz reflecti cabisbaixo. Convencido que naquele dia não poderia cruzar-me com ninguém porque tinha perdido o meu sorriso, caminhei a contar os passos, imaginando a distância que faltaria para a próxima felicidade. … Quinze, dezasseis, dezassete, dezoito…
Anil e Violeta
… Dezanove, vinte, vinte e um…
As paredes forradas num papel aveludado azul índigo ao contrário da usual quadratura formavam um triangulo rectângulo.
Ao longo da parede que formava a hipotenusa três janelas rasgavam o papel dando uma entrada à luz, outra ao som. A do meio permitia só a entrada de aromas.
Confortei-me nas combinações que na solidão poderia fazer com aquelas 3 entradas. Da luz, do som e do aroma faria a minha felicidade por uns tempos. Cheguei a essa conclusão ao vigésimo primeiro passo depois de ter deixado a Laura.
Nem procuro refinar a ideia, inseri-la numa torre de refinação onde estado por estado, no cimo, a retiraria pura e simples – facilidade no contentamento –.
Os meninos fazem, quando mais não têm, dum aro e um arame uma roda e uma coluna de direcção que os levam a correr um com os outros, percorrer caminhos imaginados só por eles, que os grandes não entendem. Já não sou menino, não desisto no entanto de correr pelos meus caminhos imaginados na luz e suas sete cores; nos infindáveis aromas. Canela, pimenta, sangria de champagne, vinho do Porto, Boucheron. Tudo misturado ao som do que me apetecer; do gemido da grávida, ao gemido da árvore que tomba. Da pinga que cai na banheira ao irritável som da escova que raspa os dentes.
Para.
Os pneus gritaram de dor enquanto perdiam o corpo pelo asfalto.
Parei.
Decorei o espaço. Um jarro desproporcional que acanhava o redor com uma imensidade de violetas desvirtuou outras alternativas. Agora de uma janela a luz entrava aos abraços de todas as cores, de outra janela os aromas depenicavam-me ternamente. O som duma rixa entre homens que disputavam um naco, tão pouco, irritou-me. Mudei-o para um chamar por ti, de fora ninguém respondeu.
Silêncio.
Da porta sempre aberta, ainda não tinha mencionado a porta do espaço, entrou uma imensidade de gente disposta à facilidade no contentamento. A luz foi aparentemente mingando para dar lugar ao mistério do negrume onde o colorido sobressai, os aromas mesclavam-se, nem um faro apurado distinguia as suas origens exceptuando a maresia das violetas. O papel aveludado azul índigo, ou anil, tornava o triângulo justo à gente.
Finalmente, de fora da janela entrou o som tímido de sorrisos que engrandeceram até se tornarem gargalhadas ensurdecedoras. Recatei-me um pouco, cantarolei e todos cantarolaram: O tempo passa e o tempo voa, o tempo passa e o tempo voa.
- Reluzam-se à vontade! Disse baixo sem mais nada poder fazer.
A solidão é impossível quando imagino, continuei em pensamento. Que “must”!

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