pedro alex

11/09/07

Suavidade

Mantenho a minha escrita num timbre suave, descontraído, de chinelos, aspirando desta vez em imaginar a expressão mais sublime da suavidade, infelizmente ofuscada pela teimosa idiossincrasia que de forma persistente recusa-se em ajudar. Podia tão bem encontrar essa doce harmonia em linhas de palavras adjectivadas em tanta coisa já lida e vista, adornada por uma razão morna, imagens queridas, complacentes, tão complacentes que não evitassem uma gota, que se livrem de vez as lágrimas, de emoção.
Degolar-me-ia ao primeiro sinal dessa protuberante manifestação de decrepitude. Tanto peço a Deus que me livre da normalidade que um dia, milagrosamente, num divino raio de inspiração vê-la-ei ao meu lado e incrédulo não acreditarei, tão subtraído me sinto pelo que os sentidos me vão segredando.
De abstémio sem vergonha, erecto na minha razão, abordo agora sofregamente o vapor de qualquer ideia inspirando uma esquizofrenia tolerável mas destemida que me ilumine de vez e ma esboce.
Oh monótona divagação, mentiste-me no vislumbre da suavidade!
Os teus suspiros são tão corpóreos que indiciam vontade na procura do desejo superlativo que corrompe, tal como as mãos balançadas quando amparam dois quaisquer que acabam por vacilar numa altura imprópria tentando selar a concórdia. Suavidade.
Talvez na eloquência da sobriedade a encontre, na forma de uma vaca a pastar num campo indiferente ao bezerro que pariu, ou na calmaria de virar páginas de um livro que os adoradores do frio apregoam num esplendor glorioso.
Talvez nas novas cinco lâminas de escanhoar a barba encontre a suavidade, talvez na leitosa mansidão da corrente dum rio durante o estio enquanto a aragem se espreguiça pelos canaviais. A suavidade terá de estar em qualquer lado à espera que lhe tire o significado e o aplique na vivência. Por não ser egoísta vou procurá-la e mal dê de caras com ela emprestá-la-ei testando o gosto dos outros, porque a que procuro terá de servir a todos.

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