Conversas do Monte.
Entrei.
- “Raparigo”, aqui há lobos?
- Não senhor, por aqui não os há!
- Onde se vêm então os lobos, “raparigo”?
- Não senhor, por aqui não os há!
- Na cova da moira hão-os, “raparigo”?
- Não sei não, senhor!
- Dizem que na cova da moira eles são vistos!
- Dizem os que estão mal da vista, senhor.
- E os que estão bem da vista, “raparigo”?
- Não dizem nada, nada sabem disso senhor.
- Tu és novo “raparigo”, onde estão os velhos?
- Os que sobram?
- Os velhos!
- Não senhor, por aqui não os há?
- Onde os há, “raparigo”?
- Os lobos e os velhos, senhor?
- Sim, os lobos e os velhos!
- Dos que sobram nada sei, senhor!
- Andei para ver lobos, se não os houvessem, velhos.
- Bem sei. Quer um copo de morangueiro?
- Um copo e uma fatia de queijo.
- E de seguida vai para o monte?
- Vou, vou à cova da moira.
- Cuidado senhor, dizem que está encantada.
- A cova?
- Não a moira.
- Não há moiras encantadas!
- Isso diz o senhor, eu vi-a.
- E vês bem, “raparigo”?
- Ainda distingo a urze da carqueja e do rosmaninho, senhor.
- Dizem que as moiras se escondem entre as moitas de zimbro.
- O seu copo e a sua fatia.
- Obrigado “raparigo”, quanto se paga?
- Paga-se nada, senhor. Veja a moira e “pois” fale-me dela.
- Dela e dos lobos mais os velhos.
- Sim senhor, fale do que já se viu.
- Não pareces do monte, “raparigo”.
- Do monte ninguém tem parecenças, senhor.
- O que se tem do monte, raparigo?
- Ares senhor, tem-se ares do monte.
- Adeus…, “raparigo”.
- E aos santos, senhor. Cuidado lá no monte.
A tasca talhava-se adentro dum pedregulho escuro, granítico. O quartzo, feldspato e mica reluziam estimulados pela luz que projectava uma sombra obesa do calhau. Olhei-o embasbacado pela imponência e horrorizado com as letras brancas, mal pintadas, que borravam o penedo anunciando o nome da tasca – A Gruta –.
Era-me tudo familiar, a erosão que ajeitava as formas da pedra, o fresco, tímido ainda, o castanheiro a amarelar cantado pela aragem, o cão sarnento amarrado por uma correia de ferro desproporcional que garantia o seu cativeiro. Como se o desgraçado tivesse para onde ir.
Inspirei profundamente o fumo do cigarro queimando o lábio ainda com sabor ao morangueiro, apreciei o fumo misturado com os cheiros acres da tasca que ainda sobravam fartos nas narinas. Atirei a beata ao chão arenoso que ornava a entrada da tasca e com o pé, simulando um passo de dança, esmaguei-a com ímpeto. Nunca seria o último cigarro, tive a certeza.
Só me julgo certo quando obrigado pela falta de alternativas não opto e simplesmente me resigno ao que “der e vier”. Por sorte ou por rasgos de inteligência raramente me sinto certo, são tantas as alternativas que por graça de saber viver se me abrem, como se abrisse um leque para me refrescar, que normalmente sinto-me encantadoramente confuso, responsável e satisfeito.
Leva-me pois a certeza à frustração de saber que aquele ligeiro acto de rebeldia ao expulsar o cigarro da mão e espezinhá-lo num passo de dança, não corresponde a uma vontade férrea de o deixar eternamente, não ao cigarro, coitado do cigarro, ao vício, seja lá ele qual for.
Encolhi os ombros iluminado por um sorridente e apaziguador – que se lixe! –. Atravessei a estrada de alcatrão já muito gasto, era tanto o alcatrão como a brita, com os olhos postos no carreiro que me abriria as portas ao monte. Senti falta de alguém que me acompanhasse, os monólogos interiores se insistentes cansam-me e apavoram-me por não serem discutidos. Dei por mim mais uma vez a sorrir motivado pela primeira tentativa em imaginar naquele momento quem gostaria eu que me acompanhasse. Surgiu-me um álbum de memórias, sendo coerente, um leque de opções carregado de imagens ilustradas por tanta gente que a bem e a mal já passou por mim; alguma haveria de, instantaneamente, abrir-me a vontade em materializá-la, ou de sentir saudade. Raramente sinto a falta de alguém, ou porque me recrio na solidão ou porque estou tão bem acompanhado que outra companhia que senão aquela não me faz falta. Seriam então, como dizia o “raparigo”, os ares do monte a suscitarem-me a avidez em ter alguém do meu passado por quem sentisse uma saudade tão avassaladora que me deixasse de um passo ao seguinte de sozinho a acompanhado?
A brusquidão da loucura imposta àquele raciocínio fez-me fechar os olhos enquanto dava o passo esperançado que no outro alguém surgisse fulgurante.
Entre passos senti-me vulgar e envergonhado pela vontade que não consegui suster, mais própria dum emocionalmente descontrolado, do que dum pragmaticamente controlado. Abri os olhos já objectivado no pensamento seguinte que me deixava satisfeito.
Não me lembrei de ninguém desejava tão-somente um futuro alguém e sorri.
Estava a sorrir e a idealizar demais, são os ares do monte, supus. Concentrei-me no carreiro que indicava o começo da descida para a cova da moira apostado em não mais, mesmo que por pouco tempo, me deixar levar por tolices de uma alma tonta.
Descer um carreiro requer cuidados. Há quem desça descuidadamente confiando na gravidade e na sorte, e há quem por experiência já conheça as matreirices que os caminhos mais íngremes escondem. Ou uma pedra que se julga firme e afinal está solta, ou um “raizão” escondido entre as ervas que servirá de rasteira a um passo desprevenido, ou a própria vegetação que ao ser pisada se torna escorregadia num instante. Dá-me o tempo que já passei pelo monte experiência mais do que suficiente para duvidar do sábio dizer que a descer todos os santos ajudam. Dá-me também a vida algumas lições de que para a subir honestamente é requerido ao proponente grande forma, destreza e dedicação, enquanto que descê-la, sem necessidade de grandes requisitos, resulta muitas vezes num desaire de resultado fácil e previsível.
Até nos caminhos em plano não inclinado, que não necessitam de grande esforço ao serem calcorreados, encontro encruzilhadas e quiproquós que me elevam ou enterram, daí grita-me uma velha amiga, a consciência cósmica, avisando-me de que o melhor é usar cautela e caldinhos de galinha, que nunca fizeram mal a ninguém, independente da jornada ser mais ou menos inclinada.
A verdade, porque a conheço ao conhecer-me e desconhecer-me, é que a meio do percurso irei a passo montês, saltando de pedra em pedra sem lhes dar tempo de se julgarem firmes ou soltas, ignorando raízões matreiros e ervas mais ou menos escorregadias. Sou escravo do meu ímpeto mais ou menos fogoso, da constante avaliação, por graça, do tudo e de todos.
Desço, desço, desço numa encosta que para desconsolo de um naturalista, ou paisagista, ou um ou uma “ista” qualquer, varia entre cinzentos e pretos, afinal o pardacento que vais sendo comum à nossa “vista”. Do que tinham sido pinhais, as incomparáveis manchas verdes inigualáveis no que proporcionam aos sentidos, uma orgia de cores serenas, de sons lá das agulhas a roçarem-se nas copas altas, de cheiros misturados pela resina e a madeira, restava uma desolação que por tão insistente já não fazia doer o mais meloso dos corações.
- Grandes filhos das putas! Gritei.
Do grito só sobraram as putas que sem culpa nenhuma repetiram-se por umas duas ou três vezes. A desilusão ecoara no monte descarnado que gemia por cada passada que eu dava. Não gemas amigo, ainda te restam as lendas, talvez alguns lobos ou velhos, não esquecendo os doidos que correm atrás de moiras encantadas. Dei-lhe um pontapé numa pedra, não suporto queixumes, nem prantos, nem cultos miserabilistas.
- Sê Homem monte!
Descido ao fundo do monte encontrei o que esperava, um rio que serpenteava quase sempre na sombra das encostas, um arvoredo aleatório e denso, a ausência de pensamentos e o ronronar da Natureza à espera de ser afagada pelos sentidos. O caminho, agora em plano, era contra a corrente do rio.
Caminhar contra a corrente parece uma tarefa hercúlea se ela for de monte a monte. Há, no entanto, truques que permitem fazer da caminhada um passeio calmo, sem necessidade de grandes gastos de energia e paciência, coisas que hoje em dia tanto se apregoa e instiga à poupança.
Deixa-te, rapaz, de conceitos económicos e vai ao que interessa:
Caminhar contra a corrente e encontrar a moira encantada.
Olhos, ouvidos e pés, ou melhor, visão, audição e tacto, são os atributos que seleccionei para a segunda parte da minha jornada.
Os olhos para escolher o melhor percurso entre a corrente procurando insistentemente os “remances”. Remances são zonas entre a corrente que por acção ou de grandes pedregulhos, ou de ramadas e mais ramadas, formam uma zona de calmaria no meio da água que tudo arrasta.
Os ouvidos para ouvir os rumores da dita, que por vezes fustiga tanto que me leva à exaustão. Se ela rumorejar muito, calma e coragem que esta vida é uma passagem; é preferível escolher outro caminho ou deixar para outro dia de mais calmaria o intento.
Os pés para tactear o fundo da corrente, que se de areia for, ao contrário do que pensaria um vulgar curioso, não é movediço e dá segurança. Se estiver forrado por rebolos ou fraguedo acastanhado todo o cuidado é pouco, mais vale dos pés fazer palmas de mãos, e como quando apalpo os segredos de uma mulher, com os pés apalpo o fundo traiçoeiro, que me arrasta e num ápice me deixa sem pé, sem ar, aos soluços, desequilibrado.
Raios me partam se a corrente não se parece com uma mulher.
Olhei com vagar, como um rei quando olha o seu reino. Reflecti sobre o porquê de tanta teoria se por um bom julgamento, inconsciente, já me tinha metido ao caminho seguindo um carreiro pela margem. Raios me partam se isto é coisa de um homem que sabe o que quer?
De pouco importa, as considerações servem, neste caso, mais de atraso do que de adianto. O relógio marca o início da tarde, meti-me valorosamente ao caminho sem mais pensamentos.
Só penso quando estou só, agora, a que dizem ter diamantes dentro dela espera por mim dentro de uma cova.
- Dentro duma cova? Raios partam a moira, se calhar também balbucia “tefone”…
Andei, andei aí uma boa meia hora margem acima sem dar cuidado a outros devaneios que não os de usufruir a melancolia da cotovia dissonante do rumorejar impávido da corrente e da exuberância do acervo natural que me era oferecido.
Depois de uma curva pouco saliente que o curso da água moldou e o homem vincou plantando amieiros, vi ao longe a silhueta de duas mulheres que pela curvatura deveriam andar na lide heróica de semear a terra. Aos poucos, tornando-se cada vez mais nítidas, relembrei algumas cenas pitorescas que um dia, à tempos imemoriais, passei lá na terra dos meus avós, com as mulheres dos caseiros que preservavam as nossas posses com trabalho de sol a sol, desumano, cantado por modas alegres e superado por uma vontade férrea em cumprir com esmero o destino que a modéstia das suas origens lhes tinha traçado.
Eu, menino, era tratado como de um morgado se tratasse, e, não o sendo, simulava bem a pose imitando o traço do meu avô, o latifundiário, adoptando um jeito altivo reforçado por um bordão moldado ao meu tamanho ainda petiz. A varita nunca abandonava a minha mão direita. Servia-me para vergar o silvedo a golpes que zuniam, arredar alguma vaca que se tresmalhasse, e, acima de tudo, proteger-me de alguma sórdida serpente, diziam as mulheres que as maiores bufavam e cuspiam, e que por grande infortúnio meu nunca encontrei de forma a que, a todos pudesse mostrar a minha valentia matando-a.
Talvez por isso, agora, graúdo, satisfaz-me tê-las nas mãos, esses bichos amaldiçoados por Deus a rastejarem por toda a eternidade, e benditos por tentarem Eva a confiar ao seu companheiro Adão o fruto proibido, que por mim só em tartes é bom.
De tal forma aprecio a tentação que julgo ter-me imunizado contra o veneno do ofídio, e mais, não há nenhuma que por olhos mais deliciosos que possua me consiga hipnotizar.
Aproximei-me das mulheres, mulheres tão diferentes das da altura sempre de lenços e aventais garridos, mulheres agora de calças de ganga, camisolas dos chineses e bonés do Benfica, mas que, só pelos ares do monte, mantêm a destreza de bem falar, à moda delas, e melhor receber.
Saudei-as com tanto agrado que não puderam, no momento, disfarçar a surpresa pelo meu tom ao costume delas.
Acabados os intróitos fui directo ao meu propósito:
- Digam-me então as senhoras se por aqui vou eu bem no caminho da cova da moira.
- Se vai bem pois claro que vai, não sabemos é se a poisona estará à sua espera.
E rimo-nos a bom rir, nunca se viu um homem bem posto demandar pela da das terras de África.
- E sem ser abelhuda, diga-nos lá o senhor porque a procura.
- Diz-se que a que nunca ninguém viu lê a sina na alma da gente e não nas linhas da mão…
- E é lá o senhor criatura de se ler o destino!
- E pois sim que o sou. Porque não houvera, então, eu de o ser? Respondi colocando ao ritmo das palavras as não nas ancas.
- Pois… siga então pelo rio fora mais uns vinte minutos se for a bom passo. Além de uma curva que mais parece um cotovelo entra um cabeço graúdo a rio dentro. Suba-o a cuidado, depois do campo que se lhe segue, diz que é por ali a cova da sostrona.
Despedi-me e segui. Passados poucos passos olhei para trás mas as mulheres, já dedicadas aos seus serviços, nem reparam que as queria para mais um até logo. Adeus diz-se aos que morrem ou aos que nunca mais voltarão.
Tive de repousar.
As passadas apressadas e bem cadenciadas com o calor que sai da terra durante o final do estio estafaram-me.
Pela indicação das mulheres pouco faltaria para chegar ao lugar onde deveria encontrar a digna representante dalgumas lendas da minha terra. A Moira Encantada.
No entanto a canseira era grande e mal parecia encontrar a desejada, a arfar como um jumento, roncar como um porco, sem falar dos bofes, que como um touro depois da estocada fatal, e ridícula, me escapariam sem cerimónia.
Um pedregulho oval pareceu-me um bom poiso para o merecido descanso, tão necessário para que recompusesse a figura caso a olhasse.
Alapei-me desprimoroso, de pernas esticadas e escarrapachadas na poltrona improvisada, que desconfortável só seria a alguma espécie de ocioso que por ali a visse, examinasse e desdenhasse. Pouco me importa.
Será poisado no granito que procurarei o melhor sorriso e o melhor disfarce para o espanto que terei quando a vir. Será na aspereza do granito que procurarei a mais astuta eloquência que, talvez, mascare a minha gaguez à pergunta “quem és tu?”.
Passei as mãos pela cara, provavelmente sujei-a. Quem sou eu?
Não me custa relembrar-me. Sinto-me tranquilo.
Acomodo-me aos contornos dos montes, são a chaiselong onde repousa a preguiça dos meus sonhos, altos, escaláveis, dimensionados pela minha condição humana. Quais serão os sonhos dos deuses?
Da suposição clássica, tão bela na retórica, já não creio em nada. Um deus se sonhasse seria com Pilatos ou Judas, acordaria suado sem deusas do seu lado e praguejaria contra sua sorte pela falta de inspiração nos mundos que criou.
Este meu pequeno mundo, limitado pelo que os meus olhos e imaginação deixam ver, é bem mais aprazível e apaziguador. Neste momento gravita nela. Nela.
Levantei-me resoluto.
Agora era de vez e, finalmente, a história teria um fim.
De lá acolá, absorto, foi um tiro.
A descrição do sítio pelas mulheres foi perfeito, a explicação feminina é um encanto, reservo o que tenho de melhor para a ouvir, desde os contos fantásticos aos desabafos que vêm ter comigo. A conversa feminina tem um feitiço que me entrança com ela, sem possibilidade de fuga.
Cheguei embrulhado no meu encanto inexplicavelmente simplório, e sem pudor apresentei-me à inimaginável.
- Viva, cá cheguei! Por onde te escondes?
A reposta previsível veio do nada através de uma brisa, mais nada que senão brisa. Acolhia esticando o pescoço (como um gato quando se dá ao mimo) e no íntimo ronronei.
(Ronrom, ronrom, ronrom) Senti vergonha.
- Olá!...
(Olá, olá, olá, olá, olá…) palavras que se perdem.
Esperei. De nada serve expressar os pensamentos de quem espera, surgem do nada, motivados pelas impressões dos momentos de expectativa na delonga. Como não sou dado a grandes esperas, aguardei o tempo necessário para que uma mulher se apronte mediante uma visita inesperada. Passado o que deduzi ser um tempo razoável virei as costas com o previsível encolher de ombros.
Afinal sempre era verdade que a ditosa não existia, era simplesmente uma conjectura feita com a fé de quem sonha.
- Pois claro que sonho, quem não sonha! Bradei à brisa.
- Confessas-te então um sonhador?
Virei-me assustado.
De pé, numa postura altiva, de mini-saia e blusa curtíssima estava uma mulher. Alta, morena, cabelos negros, olhos caramelo, peitilho erguido, braços esguios e pernas esculturais, cintura modelada de forma a notar-se as ancas, cara cinzelada e marcada nos traços por uma perfeição angustiante.
- Viva! Não, não me confesso, não creio no perdão. Quem és?
- Eu? Eu sou eu, não me procuravas?
- Não. Procurava uma moira encantada.
- Eu sou a moira.
Ri. – Não tu és uma aparição “miles” de gira, nunca serias uma moira encantada.
- Não! Sou a que procuras! Surjo mediante o ideal de cada um.
- Ah, bom. Então, belo…
- Resumes-te a umas curtas palavras depois de uma procura há tanto planeada?
- Não me obrigues a falar. Se me lês os pensamentos sabes desde já o que penso e vou sentindo.
- Sim. E estás desiludido porque não vinhas à procura dum ideal mas sim dum encantamento.
-Por aí, por aí. De facto procurava uma mulher encantada e não uma mulher ideal. Mulheres ideais hão muitas, e por elas não me canso nem tenho conversas do monte. Só admito perder-me e nunca mais ser visto se a causa determinante for uma fascinação. Por um ideal não mexo uma palha.
- Se então não te deixas deslumbrar pelo meu ideal, então vai-te, segue o teu caminho.
- Já sabes que é isso mesmo o que farei. Aliás, passei por cá não só por ti. Ainda tenho esperança de encontrar velhos e talvez lobos!
- Segue o teu caminho então, homem lobo.
- Até à vista mulher ideal. Quando for antigo procurar-te-ei.
Entardecia. Acendi o meu cigarro. Ao expelir o fumo que me saciou formei com os lábios um aro azulado que se ergueu, planou, e levado pela brisa colocou-se atrás da minha cabeça seguindo-me teimosamente. Que estafermo de figurino o meu, a mulher ideal com algum engenho gozava-me fazendo de mim um santinho.
Achei-lhe graça…
Despedi-me do monte. Até sempre caro amigo.
Entrei.
- “Raparigo”, aqui há lobos?
- Não senhor, por aqui não os há!
- Onde se vêm então os lobos, “raparigo”?
- Não senhor, por aqui não os há!
- Na cova da moira hão-os, “raparigo”?
- Não sei não, senhor!
- Dizem que na cova da moira eles são vistos!
- Dizem os que estão mal da vista, senhor.
- E os que estão bem da vista, “raparigo”?
- Não dizem nada, nada sabem disso senhor.
- Tu és novo “raparigo”, onde estão os velhos?
- Os que sobram?
- Os velhos!
- Não senhor, por aqui não os há?
- Onde os há, “raparigo”?
- Os lobos e os velhos, senhor?
- Sim, os lobos e os velhos!
- Dos que sobram nada sei, senhor!
- Andei para ver lobos, se não os houvessem, velhos.
- Bem sei. Quer um copo de morangueiro?
- Um copo e uma fatia de queijo.
- E de seguida vai para o monte?
- Vou, vou à cova da moira.
- Cuidado senhor, dizem que está encantada.
- A cova?
- Não a moira.
- Não há moiras encantadas!
- Isso diz o senhor, eu vi-a.
- E vês bem, “raparigo”?
- Ainda distingo a urze da carqueja e do rosmaninho, senhor.
- Dizem que as moiras se escondem entre as moitas de zimbro.
- O seu copo e a sua fatia.
- Obrigado “raparigo”, quanto se paga?
- Paga-se nada, senhor. Veja a moira e “pois” fale-me dela.
- Dela e dos lobos mais os velhos.
- Sim senhor, fale do que já se viu.
- Não pareces do monte, “raparigo”.
- Do monte ninguém tem parecenças, senhor.
- O que se tem do monte, raparigo?
- Ares senhor, tem-se ares do monte.
- Adeus…, “raparigo”.
- E aos santos, senhor. Cuidado lá no monte.
A tasca talhava-se adentro dum pedregulho escuro, granítico. O quartzo, feldspato e mica reluziam estimulados pela luz que projectava uma sombra obesa do calhau. Olhei-o embasbacado pela imponência e horrorizado com as letras brancas, mal pintadas, que borravam o penedo anunciando o nome da tasca – A Gruta –.
Era-me tudo familiar, a erosão que ajeitava as formas da pedra, o fresco, tímido ainda, o castanheiro a amarelar cantado pela aragem, o cão sarnento amarrado por uma correia de ferro desproporcional que garantia o seu cativeiro. Como se o desgraçado tivesse para onde ir.
Inspirei profundamente o fumo do cigarro queimando o lábio ainda com sabor ao morangueiro, apreciei o fumo misturado com os cheiros acres da tasca que ainda sobravam fartos nas narinas. Atirei a beata ao chão arenoso que ornava a entrada da tasca e com o pé, simulando um passo de dança, esmaguei-a com ímpeto. Nunca seria o último cigarro, tive a certeza.
Só me julgo certo quando obrigado pela falta de alternativas não opto e simplesmente me resigno ao que “der e vier”. Por sorte ou por rasgos de inteligência raramente me sinto certo, são tantas as alternativas que por graça de saber viver se me abrem, como se abrisse um leque para me refrescar, que normalmente sinto-me encantadoramente confuso, responsável e satisfeito.
Leva-me pois a certeza à frustração de saber que aquele ligeiro acto de rebeldia ao expulsar o cigarro da mão e espezinhá-lo num passo de dança, não corresponde a uma vontade férrea de o deixar eternamente, não ao cigarro, coitado do cigarro, ao vício, seja lá ele qual for.
Encolhi os ombros iluminado por um sorridente e apaziguador – que se lixe! –. Atravessei a estrada de alcatrão já muito gasto, era tanto o alcatrão como a brita, com os olhos postos no carreiro que me abriria as portas ao monte. Senti falta de alguém que me acompanhasse, os monólogos interiores se insistentes cansam-me e apavoram-me por não serem discutidos. Dei por mim mais uma vez a sorrir motivado pela primeira tentativa em imaginar naquele momento quem gostaria eu que me acompanhasse. Surgiu-me um álbum de memórias, sendo coerente, um leque de opções carregado de imagens ilustradas por tanta gente que a bem e a mal já passou por mim; alguma haveria de, instantaneamente, abrir-me a vontade em materializá-la, ou de sentir saudade. Raramente sinto a falta de alguém, ou porque me recrio na solidão ou porque estou tão bem acompanhado que outra companhia que senão aquela não me faz falta. Seriam então, como dizia o “raparigo”, os ares do monte a suscitarem-me a avidez em ter alguém do meu passado por quem sentisse uma saudade tão avassaladora que me deixasse de um passo ao seguinte de sozinho a acompanhado?
A brusquidão da loucura imposta àquele raciocínio fez-me fechar os olhos enquanto dava o passo esperançado que no outro alguém surgisse fulgurante.
Entre passos senti-me vulgar e envergonhado pela vontade que não consegui suster, mais própria dum emocionalmente descontrolado, do que dum pragmaticamente controlado. Abri os olhos já objectivado no pensamento seguinte que me deixava satisfeito.
Não me lembrei de ninguém desejava tão-somente um futuro alguém e sorri.
Estava a sorrir e a idealizar demais, são os ares do monte, supus. Concentrei-me no carreiro que indicava o começo da descida para a cova da moira apostado em não mais, mesmo que por pouco tempo, me deixar levar por tolices de uma alma tonta.
Descer um carreiro requer cuidados. Há quem desça descuidadamente confiando na gravidade e na sorte, e há quem por experiência já conheça as matreirices que os caminhos mais íngremes escondem. Ou uma pedra que se julga firme e afinal está solta, ou um “raizão” escondido entre as ervas que servirá de rasteira a um passo desprevenido, ou a própria vegetação que ao ser pisada se torna escorregadia num instante. Dá-me o tempo que já passei pelo monte experiência mais do que suficiente para duvidar do sábio dizer que a descer todos os santos ajudam. Dá-me também a vida algumas lições de que para a subir honestamente é requerido ao proponente grande forma, destreza e dedicação, enquanto que descê-la, sem necessidade de grandes requisitos, resulta muitas vezes num desaire de resultado fácil e previsível.
Até nos caminhos em plano não inclinado, que não necessitam de grande esforço ao serem calcorreados, encontro encruzilhadas e quiproquós que me elevam ou enterram, daí grita-me uma velha amiga, a consciência cósmica, avisando-me de que o melhor é usar cautela e caldinhos de galinha, que nunca fizeram mal a ninguém, independente da jornada ser mais ou menos inclinada.
A verdade, porque a conheço ao conhecer-me e desconhecer-me, é que a meio do percurso irei a passo montês, saltando de pedra em pedra sem lhes dar tempo de se julgarem firmes ou soltas, ignorando raízões matreiros e ervas mais ou menos escorregadias. Sou escravo do meu ímpeto mais ou menos fogoso, da constante avaliação, por graça, do tudo e de todos.
Desço, desço, desço numa encosta que para desconsolo de um naturalista, ou paisagista, ou um ou uma “ista” qualquer, varia entre cinzentos e pretos, afinal o pardacento que vais sendo comum à nossa “vista”. Do que tinham sido pinhais, as incomparáveis manchas verdes inigualáveis no que proporcionam aos sentidos, uma orgia de cores serenas, de sons lá das agulhas a roçarem-se nas copas altas, de cheiros misturados pela resina e a madeira, restava uma desolação que por tão insistente já não fazia doer o mais meloso dos corações.
- Grandes filhos das putas! Gritei.
Do grito só sobraram as putas que sem culpa nenhuma repetiram-se por umas duas ou três vezes. A desilusão ecoara no monte descarnado que gemia por cada passada que eu dava. Não gemas amigo, ainda te restam as lendas, talvez alguns lobos ou velhos, não esquecendo os doidos que correm atrás de moiras encantadas. Dei-lhe um pontapé numa pedra, não suporto queixumes, nem prantos, nem cultos miserabilistas.
- Sê Homem monte!
Descido ao fundo do monte encontrei o que esperava, um rio que serpenteava quase sempre na sombra das encostas, um arvoredo aleatório e denso, a ausência de pensamentos e o ronronar da Natureza à espera de ser afagada pelos sentidos. O caminho, agora em plano, era contra a corrente do rio.
Caminhar contra a corrente parece uma tarefa hercúlea se ela for de monte a monte. Há, no entanto, truques que permitem fazer da caminhada um passeio calmo, sem necessidade de grandes gastos de energia e paciência, coisas que hoje em dia tanto se apregoa e instiga à poupança.
Deixa-te, rapaz, de conceitos económicos e vai ao que interessa:
Caminhar contra a corrente e encontrar a moira encantada.
Olhos, ouvidos e pés, ou melhor, visão, audição e tacto, são os atributos que seleccionei para a segunda parte da minha jornada.
Os olhos para escolher o melhor percurso entre a corrente procurando insistentemente os “remances”. Remances são zonas entre a corrente que por acção ou de grandes pedregulhos, ou de ramadas e mais ramadas, formam uma zona de calmaria no meio da água que tudo arrasta.
Os ouvidos para ouvir os rumores da dita, que por vezes fustiga tanto que me leva à exaustão. Se ela rumorejar muito, calma e coragem que esta vida é uma passagem; é preferível escolher outro caminho ou deixar para outro dia de mais calmaria o intento.
Os pés para tactear o fundo da corrente, que se de areia for, ao contrário do que pensaria um vulgar curioso, não é movediço e dá segurança. Se estiver forrado por rebolos ou fraguedo acastanhado todo o cuidado é pouco, mais vale dos pés fazer palmas de mãos, e como quando apalpo os segredos de uma mulher, com os pés apalpo o fundo traiçoeiro, que me arrasta e num ápice me deixa sem pé, sem ar, aos soluços, desequilibrado.
Raios me partam se a corrente não se parece com uma mulher.
Olhei com vagar, como um rei quando olha o seu reino. Reflecti sobre o porquê de tanta teoria se por um bom julgamento, inconsciente, já me tinha metido ao caminho seguindo um carreiro pela margem. Raios me partam se isto é coisa de um homem que sabe o que quer?
De pouco importa, as considerações servem, neste caso, mais de atraso do que de adianto. O relógio marca o início da tarde, meti-me valorosamente ao caminho sem mais pensamentos.
Só penso quando estou só, agora, a que dizem ter diamantes dentro dela espera por mim dentro de uma cova.
- Dentro duma cova? Raios partam a moira, se calhar também balbucia “tefone”…
Andei, andei aí uma boa meia hora margem acima sem dar cuidado a outros devaneios que não os de usufruir a melancolia da cotovia dissonante do rumorejar impávido da corrente e da exuberância do acervo natural que me era oferecido.
Depois de uma curva pouco saliente que o curso da água moldou e o homem vincou plantando amieiros, vi ao longe a silhueta de duas mulheres que pela curvatura deveriam andar na lide heróica de semear a terra. Aos poucos, tornando-se cada vez mais nítidas, relembrei algumas cenas pitorescas que um dia, à tempos imemoriais, passei lá na terra dos meus avós, com as mulheres dos caseiros que preservavam as nossas posses com trabalho de sol a sol, desumano, cantado por modas alegres e superado por uma vontade férrea em cumprir com esmero o destino que a modéstia das suas origens lhes tinha traçado.
Eu, menino, era tratado como de um morgado se tratasse, e, não o sendo, simulava bem a pose imitando o traço do meu avô, o latifundiário, adoptando um jeito altivo reforçado por um bordão moldado ao meu tamanho ainda petiz. A varita nunca abandonava a minha mão direita. Servia-me para vergar o silvedo a golpes que zuniam, arredar alguma vaca que se tresmalhasse, e, acima de tudo, proteger-me de alguma sórdida serpente, diziam as mulheres que as maiores bufavam e cuspiam, e que por grande infortúnio meu nunca encontrei de forma a que, a todos pudesse mostrar a minha valentia matando-a.
Talvez por isso, agora, graúdo, satisfaz-me tê-las nas mãos, esses bichos amaldiçoados por Deus a rastejarem por toda a eternidade, e benditos por tentarem Eva a confiar ao seu companheiro Adão o fruto proibido, que por mim só em tartes é bom.
De tal forma aprecio a tentação que julgo ter-me imunizado contra o veneno do ofídio, e mais, não há nenhuma que por olhos mais deliciosos que possua me consiga hipnotizar.
Aproximei-me das mulheres, mulheres tão diferentes das da altura sempre de lenços e aventais garridos, mulheres agora de calças de ganga, camisolas dos chineses e bonés do Benfica, mas que, só pelos ares do monte, mantêm a destreza de bem falar, à moda delas, e melhor receber.
Saudei-as com tanto agrado que não puderam, no momento, disfarçar a surpresa pelo meu tom ao costume delas.
Acabados os intróitos fui directo ao meu propósito:
- Digam-me então as senhoras se por aqui vou eu bem no caminho da cova da moira.
- Se vai bem pois claro que vai, não sabemos é se a poisona estará à sua espera.
E rimo-nos a bom rir, nunca se viu um homem bem posto demandar pela da das terras de África.
- E sem ser abelhuda, diga-nos lá o senhor porque a procura.
- Diz-se que a que nunca ninguém viu lê a sina na alma da gente e não nas linhas da mão…
- E é lá o senhor criatura de se ler o destino!
- E pois sim que o sou. Porque não houvera, então, eu de o ser? Respondi colocando ao ritmo das palavras as não nas ancas.
- Pois… siga então pelo rio fora mais uns vinte minutos se for a bom passo. Além de uma curva que mais parece um cotovelo entra um cabeço graúdo a rio dentro. Suba-o a cuidado, depois do campo que se lhe segue, diz que é por ali a cova da sostrona.
Despedi-me e segui. Passados poucos passos olhei para trás mas as mulheres, já dedicadas aos seus serviços, nem reparam que as queria para mais um até logo. Adeus diz-se aos que morrem ou aos que nunca mais voltarão.
Tive de repousar.
As passadas apressadas e bem cadenciadas com o calor que sai da terra durante o final do estio estafaram-me.
Pela indicação das mulheres pouco faltaria para chegar ao lugar onde deveria encontrar a digna representante dalgumas lendas da minha terra. A Moira Encantada.
No entanto a canseira era grande e mal parecia encontrar a desejada, a arfar como um jumento, roncar como um porco, sem falar dos bofes, que como um touro depois da estocada fatal, e ridícula, me escapariam sem cerimónia.
Um pedregulho oval pareceu-me um bom poiso para o merecido descanso, tão necessário para que recompusesse a figura caso a olhasse.
Alapei-me desprimoroso, de pernas esticadas e escarrapachadas na poltrona improvisada, que desconfortável só seria a alguma espécie de ocioso que por ali a visse, examinasse e desdenhasse. Pouco me importa.
Será poisado no granito que procurarei o melhor sorriso e o melhor disfarce para o espanto que terei quando a vir. Será na aspereza do granito que procurarei a mais astuta eloquência que, talvez, mascare a minha gaguez à pergunta “quem és tu?”.
Passei as mãos pela cara, provavelmente sujei-a. Quem sou eu?
Não me custa relembrar-me. Sinto-me tranquilo.
Acomodo-me aos contornos dos montes, são a chaiselong onde repousa a preguiça dos meus sonhos, altos, escaláveis, dimensionados pela minha condição humana. Quais serão os sonhos dos deuses?
Da suposição clássica, tão bela na retórica, já não creio em nada. Um deus se sonhasse seria com Pilatos ou Judas, acordaria suado sem deusas do seu lado e praguejaria contra sua sorte pela falta de inspiração nos mundos que criou.
Este meu pequeno mundo, limitado pelo que os meus olhos e imaginação deixam ver, é bem mais aprazível e apaziguador. Neste momento gravita nela. Nela.
Levantei-me resoluto.
Agora era de vez e, finalmente, a história teria um fim.
De lá acolá, absorto, foi um tiro.
A descrição do sítio pelas mulheres foi perfeito, a explicação feminina é um encanto, reservo o que tenho de melhor para a ouvir, desde os contos fantásticos aos desabafos que vêm ter comigo. A conversa feminina tem um feitiço que me entrança com ela, sem possibilidade de fuga.
Cheguei embrulhado no meu encanto inexplicavelmente simplório, e sem pudor apresentei-me à inimaginável.
- Viva, cá cheguei! Por onde te escondes?
A reposta previsível veio do nada através de uma brisa, mais nada que senão brisa. Acolhia esticando o pescoço (como um gato quando se dá ao mimo) e no íntimo ronronei.
(Ronrom, ronrom, ronrom) Senti vergonha.
- Olá!...
(Olá, olá, olá, olá, olá…) palavras que se perdem.
Esperei. De nada serve expressar os pensamentos de quem espera, surgem do nada, motivados pelas impressões dos momentos de expectativa na delonga. Como não sou dado a grandes esperas, aguardei o tempo necessário para que uma mulher se apronte mediante uma visita inesperada. Passado o que deduzi ser um tempo razoável virei as costas com o previsível encolher de ombros.
Afinal sempre era verdade que a ditosa não existia, era simplesmente uma conjectura feita com a fé de quem sonha.
- Pois claro que sonho, quem não sonha! Bradei à brisa.
- Confessas-te então um sonhador?
Virei-me assustado.
De pé, numa postura altiva, de mini-saia e blusa curtíssima estava uma mulher. Alta, morena, cabelos negros, olhos caramelo, peitilho erguido, braços esguios e pernas esculturais, cintura modelada de forma a notar-se as ancas, cara cinzelada e marcada nos traços por uma perfeição angustiante.
- Viva! Não, não me confesso, não creio no perdão. Quem és?
- Eu? Eu sou eu, não me procuravas?
- Não. Procurava uma moira encantada.
- Eu sou a moira.
Ri. – Não tu és uma aparição “miles” de gira, nunca serias uma moira encantada.
- Não! Sou a que procuras! Surjo mediante o ideal de cada um.
- Ah, bom. Então, belo…
- Resumes-te a umas curtas palavras depois de uma procura há tanto planeada?
- Não me obrigues a falar. Se me lês os pensamentos sabes desde já o que penso e vou sentindo.
- Sim. E estás desiludido porque não vinhas à procura dum ideal mas sim dum encantamento.
-Por aí, por aí. De facto procurava uma mulher encantada e não uma mulher ideal. Mulheres ideais hão muitas, e por elas não me canso nem tenho conversas do monte. Só admito perder-me e nunca mais ser visto se a causa determinante for uma fascinação. Por um ideal não mexo uma palha.
- Se então não te deixas deslumbrar pelo meu ideal, então vai-te, segue o teu caminho.
- Já sabes que é isso mesmo o que farei. Aliás, passei por cá não só por ti. Ainda tenho esperança de encontrar velhos e talvez lobos!
- Segue o teu caminho então, homem lobo.
- Até à vista mulher ideal. Quando for antigo procurar-te-ei.
Entardecia. Acendi o meu cigarro. Ao expelir o fumo que me saciou formei com os lábios um aro azulado que se ergueu, planou, e levado pela brisa colocou-se atrás da minha cabeça seguindo-me teimosamente. Que estafermo de figurino o meu, a mulher ideal com algum engenho gozava-me fazendo de mim um santinho.
Achei-lhe graça…
Despedi-me do monte. Até sempre caro amigo.
2 comentários:
Então agora jogamos na mesma equipa pá?
Andava eu a pensar experimentar o sapo, é que isto também é um pouco limitado sobretudo se quiseres publicar scripts mais complicados, a própria linguagem html que o blogspot usa está muito ultrapassada, mas enfim, se precisares de ajuda aqui no blogspot avisa e, até já....
Sabes, estava a ter problemas com a plataforma do sapo. Não conseguia validar alterações, ou se conseguia, mal entrasse na plataforma novamente, eram assumidas as contantes anteriores.
Não tenho pachorra para isso.
Zau... quem não está bem, muda-se.
Thanks pela disponibilidade, hajam dúvidas, chateio-te!
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