pedro alex

18/05/07

Coisas Boas- Gaja boa, porque não!!


Ta ta ta, ta ta ta, ta ta ta, ta ta ta, ta, ta ta. (primeiros acordes da música)
Será esta a minha auto-estrada para o inferno?
O inferno está longe de ser como a imaginação popular o representa. Já lá fui e de lá vim várias vezes, nunca encontrei chifrudos, mulheres cozinhadas em potes de ferro, tentações anormais, pecados capitais e outras cenas mais que tais.
O Inferno é uma tábua de frutas a ser repartida por uma gaja boa à minha frente. Por cada trinca que mando na fruta lembro-me sempre das trincas não repartidas que lhe mandarei.
O que nela saberá a manga? A ananás? A anona? A morangos? A uvas moscatel?
Tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac tic tac podia ser a contagem final para o dispositivo percursor duma explosão num atentado bombista. Seria um inferno. Mas não, esse infernal tic tac não passa do meu relógio que abafa o barulho dela a dormir. Eu acordado, aquele espectáculo a dormir, a cama estilo ginásio, o relógio aos berros tic tac e ela não acorda. É um inferno.
Clop clop clop clop clop clop clop clop clop poderia ser o som dos cascos do cabrão chifrudo a arrastar-se pelos corredores amedrontando em sonhos quem dorme, ou quem acordado, em vez de dormir, pensa nas maledicências da vida com ele. Todavia não é nada disso, resulta do som das passadas dela.
Paro, escuto e olho.
Paro para a ver afastar
Paro para ouvir o seu andar.
Paro para galar o inferno dumas botas enfiadas nos jeans onde ela se enfia.
Eh eh eh eh eh eh eh eh eh eh he eh poderia ser o esgar de uma alma condenada ao eterno suplício em que por mal se solta no mundo lavando as carpideiras a rezas sem conta durante os finais da tarde de Maio por essas aldeias do Portugal profundo. Não passa, no entanto, do som emitido pela boca, mas que inferno de boca, da gaja boa quando se abre exprimindo graça a uma idiotice minha.
Humm humm humm humm humm humm humm humm poderiam ser os gritos amortalhados de quem finalmente tem a visão da morte vestida de negro, de ceifa empunhada e preparada para o golpe final, desesperando infernalmente quem padece da agonia.
- Humm, mais devagar, sou tímida… humm, humm, mais calma, tens tempo… humm, humm, humm, mais depressa… hummmmmmmmm, mais devagar agora…
hummmmmmmmmmmmmmmmmmmmm!!!! Que infernal.
São tantos os sons que me acompanham durante uma jornada com a gaja boa, dos sons que os dois emitimos vou definindo o percurso, o prazer, a esperança, a expectativa, a vontade.
Só nos silenciamos na pausa prolongada de um beijo, ou na partilha de um sono profundo que nos descanse e revitalize para um acordar infernalmente meigo, um dia barulhento como o inferno e uma noite intimamente infernal.
Nunca entendi os silêncios, mesmo o silêncio mentido pelos poetas apaixonados em que abusam da cumplicidade para o justificar custa-me a aceitar.
A vida é feita de sons, de impulsos, de acções e reacções que me limitam ou libertam, que me encolhem ou expandem, que me enrijecem ou vergam.
Os silêncios são frios e vazios, ponto final.

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