Sinto a inquietação pulsar ao jeito da enxaqueca. É tão difícil de a suportar; ao contrário da maldita dor de cabeça não é o silêncio, a obscuridade e o imobilismo que me aliviam. Ignoro quais os segredos da inquietação que por vezes me agride dolorosamente, soubesse eu os seus segredos, saberia eu a sua cura.
É a minha obrigação racionalizar – será? -, traduzir e interpretar os impulsos dolorosos que me são transmitidos sabe-se lá de onde.
Receio – quem não receará? -, que tudo se ilumine na frustração, luz difusa, que me encaixilha o rótulo de frustrado. Sim, pois claro, sou um frustrado, ou um precipitado na ligeireza com que determino as minhas conclusões. Não acredito o ser humano assim tão complicado, se bem que o querem de porcelana e adornado, cada vez mais contorcido e torneado, esquecendo a sua natureza, feito à Sua imagem, que o glorifica e endeusa.
Do homem natural que nasci – a minha carne é de porcelana – sou agora um homem artificial que não encontro o meu sossego na simplicidade da minha essência. Só os artifícios, quanto mais elaborados melhor, me empanturram e saciam. Que vergonha!
Que vergonha o medo de ver uma página em branco, admitir a beleza da sua brancura, ou virgindade, ou pureza.
Uma página em branco. Será normal?
Não bastaríamos só nós, todos nós, páginas brancas para nos satisfazermos na plenitude da nossa essência natural?
Hoje levantei-me determinado no uso de um perfume, borrifei-o, pouco, mas que se sentisse. Que vergonha, que inconsciência. Que vergonha, que inconsciência uma ova!
Qual seria a minha impressão, vá, o meu testemunho, se não me valesse de toda a minha complexidade, da minha artificialidade?
- Seria um zero à esquerda, ou um bicho!
Que vergonha ser-se tão simples, que vergonha a ausência de achaques existenciais, que vergonha a falta de estilo ou de moda. Que vergonha a pouca intelectualidade.
Viva, viva o esplendor da artificialidade, das cópias, fotocópias, scanners e copy-pastes. Viva a ultra-modernidade, viva o revivalismo, vivam todos os nós cegos. Viva o aborrecimento de copiar a folha que borrei em Word, publicá-la num blog e esperar que alguém comente. Viva o segredo de saber roubar beijos!
Fim da inquietação
Sem comentários:
Enviar um comentário