pedro alex

22/11/07

Post e história

Se do meu quotidiano fizesse, aqui, comentário, convidava-vos pois, a abrir os vossos leitos e a calçar os vossos carapins para uma boa e serena noite de sono, sem que dantes vos sugestionasse a proferir as vossas orações, aos que dormem sozinhos, ou a realização das pazes aos que, afortunados sejam porque na cama não pecam e, por isso, estão escusados de orar, dormem acompanhados. E porque, julgo, aqui nunca escrevi verdades de conveniência, ou evidências que a modernidade materialista exulta (valha-me a paciência para tanto sexo, riso & rock n'roll), resolvo, para variar, contar-vos peripécias que há muito tempo aconteceram na minha querida, ilustre, romântica, terna, única, resplandecente, heróica e livre cidade do Porto.
Eu dedico esta história à Maria Moura e ao seu maravilhoso discurso directo do “Jogos de Palavras".
De A. de Magalhães de Brito, publicado no “O Tripeiro” nº. 11 de Março de 1954
“…Quando Rossi Caccia nos visitou, ainda Camilo não dava que falar de si. Mas alguns anos depois, ele foi o cabeça de motins de todos os Waterloos teatrais e, nomeadamente, das lutas tremendas entre os dois partidos que na época lírica de 1848-49 se formaram em volta, respectivamente, de Madame Clara Belloni e de Mademoiselle Adélia Debedeille, duas célebres prima-donas do Teatro de S. João que, no dizer autorizado do próprio Camilo «trouxeram aí de escantilhão, de asneiras em asneiras, a juventude desta cidade, medieval nos seus amores, e os corações donjuaninos dos morgados de Riba-Douro, Riba-Corgo e Riba-Tâmega».
Era assim há oitenta e noventa anos. Está cheia desses casos a crónica trepidante das noites de glória do velho Teatro S. João. Do que se passava, por vezes, lá dentro, em plena sala de espectáculos, ninguém faz hoje a mínima ideia.
Quando se formavam partidos, em certas épocas do lírico, a gente pacata, temente a Deus e aos murros e cacetadas, não podia ir à ópera.
A rapaziada boémia e temível do Guichard ia para a plateia com as suas bengalas, com martelos, com cabos de vassoura, com tudo isso e ainda os tacões e com as goelas. Tudo posto em acção ao mesmo tempo imagine-se a inferneria que aquilo seria. Camilo levou para a sala, certa noite, uma corneta de lata feita na Rua Escura, a modo de porta-voz, de alto-falante, e inaugurou «pateadas à Debedeille… com trompa». Diz ele que foi essa a sua única invenção de toda a sua vida.
Os pobres pais e mães de família recolhiam a casa e tinham razão. Essa época lírica de 1848-49, foi, por sinal, uma das mais tempestuosas e animadas de todas que houve no velho S. João. Foi nesse ano que fizeram simultaneamente parte da companhia as actrizes Clara Belloni e Adélia Debedeille.
Nunca foi mais violenta a luta entre dois partidos rivais. Da sala de espectáculos as rixas extravasavam para as ruas da cidade.
Na Estalagem da Ponte de Pedra, em ocasião em que os admiradores da Debedeille ali se encontravam reunidos com essa cantora, apareceu Camilo. Ele era admirador da Belloni. Viu aquilo, encheu um copo de vinho verde, surgiu à porta da sala do banquete e disse:
- À saúde da inigualável cantora Clara Belloni!
Renuncio a contar-lhes o que então se passou. Leio-lhes apenas o balanço da festa elaborado sinteticamente pelo próprio Camilo:
Cabeças rachadas ... 2
Bofetões avulso ... 1
Canelão à sunelga ... 2
Copos quebrados ... 24
Vinho perdido, afora o das cabeças, odres ... 1
Facas perdidas com cabo de prata velha ... 1
Fanicos de senhora ... 3 ”

E assim se acaba mais um postezinho para uns e uma história para a Maria Moura. Mas não findo de vez sem antes vos desejar uma, como a minha, boa noite de sono, recomendando a uns que, ora, orem, a outros, ora, que façam as pazes. Ir para a cama em pecado ou zanga, ora, só se for por causa da Belloni ou da Debedeille.

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