pedro alex

20/04/07

Divagação, mais uma.

Quando recolhi a espada esqueci-me de quantos corações teria trespassado, cabeças decepado, vidas alterado.
Recolhi-a num acto de cansaço nunca complacência pelo adversário. Não estava mais disposto a lutar no pouco tempo de dia que me restava, o tempo de lavar as mãos, olhar-me ao espelho e determinar que nada teria acontecido por mero acaso.
Lavo-me em águas sempre corridas não importando se turvas ou cristalinas.
Tiro mais conclusões do meu reflexo do que da minha introspecção.
Já viciado na luta de pouco me adianta reflectir, olhar-me lembra-me a vida. Reflectir lembra-me fraquezas, compromissos muito antigos arquivados na memória destinados a serem esquecidos.
- Posso entrar senhor.
- Entra mulher.
- Está cansado. Quer que lhe tire a armadura?
- Porque perguntas mulher, não reconheces o teu ofício? Tira.
Será que aquela mulher já me teria visto sem armadura vezes suficientes para me perguntar o evidente? Tenho trocar de mulher. Escolher outra que me tire a armadura sem reflectir, perguntar, se me sinto mais ou menos confortável dentro dela.
- Não olhes para mim mulher.
- Desculpe senhor.
De manhã passearei pela feira, escolherei outra, mais fresca. Hoje durmo com esta. Há quanto tempo durmo com esta?
Tenho-me esquecido do tempo que passo com ela. Do tempo que poderia passar com outra, talvez melhor, talvez menos inquiridora.
- Vai-te lavar mulher!
- Volto senhor? -
Porque perguntas mulher, não reconheces o teu dever? Volta!
Se escrevi assim, terei em mim algo que se assemelhe?
Há pensamentos, formas de escrever, atitudes, reflexões, desejos, que nunca deveriam fazer parte da minha alma.
Honestamente, sinto que poderia evocar pela escrita o mal puro. A impiedade, a crueldade, a desonestidade.
Na fronteira entre o pensar e o executar existe a consciência. Definitivamente que a minha consciência é a minha salvação, é o que me dá razão nos momentos angustiantes, é o que me tira razão nos momentos apaixonantes. Nos outros momentos vivo pelo exercício da experiência acumulada.
Sou inteligente, sirvo-me da reflexão instantânea para tornar os momentos apropriados à obtenção de resultados.
Sou inteligente, tenho uma memória que me permite reconhecer determinados momentos em que para obter resultados não necessito da reflexão instantânea. Os “déjà vue” são uma constante e uma monotonia excepto no que não consigo interiorizar – os Outros –.
A consciência dos outros que por muito ou pouco normalizada que seja é sempre surpreendente quando interage comigo faz com lhes deva tudo o que sou, as minhas virtudes e os meus erros. Nunca serei um resultado de mim próprio. Dou-me por satisfeito.
Exercitei a minha divagação inconcludente. Exercitei a minha coragem. Talvez sirva para qualquer coisa em qualquer outra altura, noutro tempo.

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