pedro alex

27/03/07

Sobre o Mas que 31...





A formiga encantou-se pelo elefante, tal como o louva-a-deus pela baleia. A mãe natureza, chamou-os ao juízo perfeito e desgostosos seguiram caminhos diferentes.
A formiga teve sempre de viver com a sua pequinês, o elefante andou sempre de trombas, o louva-a-deus foi devorado pela parceira depois da cópula, e à baleia sugaram-lhe o óleo, quase até ao tutano.
Segui o meu caminho de acordo com a mãe natureza, e dou agora conta da minha natureza ser tão diferente de uns e igual a outros.
Chegou ao fim a epopeia de viver depressa, voltou o tempo da calmaria, da água com pé, voltaram as certezas de que não vale a pena, e os sonhos de que se calhar até vale.
Vou adormecer cansado, mas com um com um grande sorriso na certeza de que ganhei mais uma corrida.
Ganhei-a aos desacreditados.















Sinto-me molhado, estou a sangrar.
Sangro tanto, mas tanto, que ao contrário de me lembrar esqueço-me. Dou-me assim por satisfeito em conseguir guardar segredos, não por resistência à vontade de os espalhar, mas de tanto sangrar esqueço-me.
Sangro tanto, mas tanto, que o coração aperta tanto, mas tanto, que esqueço-me da sensação de aperto, do aperto que deixa sem bafo, do aperto que afunila e estrangula quem sopra a nortada.
Sangro tanto, mas tanto, que o desespero torna-se anedótico e faz-me rir de tão bem o conhecer.
Sangro tanto, mas tanto, pela razão de querer dar realidade e não conseguir, querer apagar este sonho que me ataranta, querer agarrar as palavras certas e esbofetear.
Sangro tanto, mas tanto, que não consigo escolher, desejar o que quer que seja. Chegou a altura de atirar a moeda ao ar e deixar que as probabilidades escolham a opção.
A crueldade do destino que resolva a chatice de ter que escolher. A mentira de arranjar desculpas que se engane, enterro-a, espeto-a bem no fundo de qualquer coisa sem fundamento e atiro-a à corrente de tanto sangrar.
Sinto-me um palhaço dos pobres por sentir estas merdas, merdas sentidas sem sentir nada, o que me deixa bestialmente confundido. Não procuro rigorosamente nada com isto, garanto que não.
- E alguém te está a pedir satisfações?
- Não!
- Então deixa-te de justificações.
- Desculpa lá, pedi-te alguma coisa, perguntei-te alguma coisa?
- Não!
- Bem me parecia…
Torço e retorço esta retalhice toda e sai-me um encolher de ombros, um enorme “que se lixe”, um brutal “estou-me a marimbar”, um gozo infinito como se fosse a queca da minha vida após a 5ª oportunidade.
Guardo a catana que me cortou e sangrou, apago o cigarro que me queimou a toalha, olho para o fundo suplicante do copo, passo a mão pelo cabelo desgrenhado, reparo no pó dos móveis, nas unhas por cortar, nas levis rotas, sinto o cheiro fedorento do ar viciado, sacudo migalhas para o chão, vem-me saliva, vem-me vontade de acabar este filme que não é o meu, mas sinto-a tão doce, tão querida, tão meiga, esta violência tão minha, que não resisto e deixar-me-ei ir sujeito aos escolhos impiedosos e lacerantes, até onde lhe apetecer.
Baralho as cartas com tanta força que as amarroto, distribuo-as e inicio a milionésima paciência.
Baralho ao meu bel-prazer, consciente que tão cedo não voltarei às paciências, nem a ensaios sobre a violência que está em mim, que está em todo o lado.
Sinto-me arrependido, deveria gastar o meu tempo noutras coisas mais quentes suaves e confortantes. Passarei rapidamente pelo purgatório. Serão cinco minutos de indefinição entre o céu e o inferno, em que as moedas lançadas nem darão cara nem coroa, em que o destino só tem uma opção – o paraíso.
Sina dos Signos
Esqueci-me da existência do blog por uns dias.
Esqueci-me sem sentir falta, porque às vezes esqueço-me mas sinto a falta. Soube hoje que é uma caracteristica do meu signo. Julguei que fosse minha, foi um alívio saber que é do signo.
Gostava de ser escorpião negro ou tubarão branco em vez de gémeos que não são bichos, mas é tarde.
Pensando bem, para quê gostar do que não se é?
Pensando ainda melhor, e porque não... gostar do que não sé é?
- De que signo és?
- Sou tubarão branco.
- Eu sou escorpião negro, somos incompativeis!
Durante uns dias vou viver depressa, se passar por ti e não disser nada, entende, não é por mal.
Durante uns dias vou viver a tentar-me e deixar-me tentar . Como todos os bichos estou naquela altura. Não, não é o cio, é pior, é racional.
Durante uns dias vou viver sem saudades. Se te der um beijo em vez de três, é porque cinco são demais.
Durante uns dias vou viver com apertos sem estar apertado.
Sedução e inquietude. Vou andar como um lobo, ou pior.
Vou extremar-me . Vou decorar o Kamasutra e praticá-lo. Vou brutalizar-me.
Afinal sou bicho e não gémeos, sou lobo. Pior, sou lobo sem alcateia.
- De que signo és?
- Sou lobo sem alcateia.
- Eu sou cordeiro, somos incompatíveis.
- E onde te vais esconder? Tens tempo?
- Quem pensas que és?
- Lobo, lobo sem alcateia.
Quando voltar estarei como me conheço, e tudo não irão passar de dias à pressa.
Quando voltar não irei lavar as minhas mãos. Não irei ter remorsos da caça, os lobos não fingem quando caçam.
A caça sabe que vai ser caçada.
Os lobos perseguem até à exaustão.
E em jubilo a plateia levantou-se, ele afirmara ser lobo.
E o lobo sorriu - lobos e capuchinhos vermelhos -, pensou nas calmas enquanto acendia um cubano e bebericava champagne. Afinal faziam 150 anos que Freud descobrira a psicanálise.
Afinal o que queREriam - que plateia enorme -, nem um lobo conseguiria descortinar qual o elo mais fraco. Tanta, tanta caça para um lobo sem alcateia, não vale a pena.
Foi-se como um lobo, sem ser visto, a pensar se afinal seria balança ou peixe aranha. Qualquer que fosse a opção sentia-se feliz.
Ou uivava e todos ouviam e temiam.
Ou pesava e todos, magros e gordos, temiam.
Ou picava, e todos temiam.
- De que signo és?
- Sou pé.
- Foge, sou peixe, aranha, somos incompatíveis!
Apareceu uma minhoca. Uma simples minhoca a dançar a dança do ventre num anzol. Convenceu o peixe, o pé, a balança, o lobo, o tubarão branco, o escorpião negro. Convenceu-os enquanto dançava a dança do ventre e seduzia a plateia.
Como convém, num cenário de pôr-do-sol, um simples, simplicíssimo pescador, num divã almofadado por dunas, interrogava-se como tinha com uma minhoca pescado tanta coisa.
- De que signo és?
- Pes, pes cador.
E quem perguntou calou-se. Lembrou-se que sem o “s”, pescador poderia ser pecador, ou dor sem a “pesca”, e não teve coragem para dizer:
- Sou o que quiseres, somos incompatíveis.

Fim.

A plateia levantou-se. Era normal, bastava um levantar-se e levantavam-se todos. O simplicíssimo pescador curvou-se em sinal de agradecimento, sentia-se um leão, tinha-os comido, a todos.
- De que signo és?
- Leão, sou leão e tu?
- Minhoca.
E como convém, num cenário de pôr-do-sol, o leão, o grande rei leão fugiu, como quem foge da cruz, sem rugir.

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